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O Campeonato esquecido

Data de Publicação: 18 de julho de 2020
Até 1974, o verdadeiro campeonato estadual de futebol do Rio de Janeiro tinha times e campeões bem diferentes do que conhecemos: e hoje, o país do futebol esquece a história de seu esporte preferido

Especialista em História: Cultura, Memória e Patrimônio,
pela UNESPAR/UV (2014), Licenciado em História pela
mesma instituição (2014) e Bacharel em Comunicação
Social com habilitação em Jornalismo (MTE 26009-07 /RJ),
pela Faculdade de Filosofia de Campos – FAFIC, (2007).
E-mail: tidejor@gmail.com

 

 

O Campeonato esquecido

Time do Americano nos anos 70 - Foto: Arquivo Pessoal
 

Você sabia que Goytacaz, Americano, Adrianino, Manufatura, Fonseca, entre outros clubes, foram campeões estaduais de futebol? Poucos ainda se lembram destes feitos, que vão se apagando da lembrança dos mais velhos, e sequer passam pela cabeça das novas gerações.

Até o ano de 1975, o atual estado do Rio de Janeiro era dividido em dois: o Estado da Guanabara, que compreendia a cidade do Rio de Janeiro, e o Estado do Rio, com sua capital em Niterói, que englobava todo o interior que conhecemos hoje. Esta divisão não era restrita ao setor político-administrativo; também era respeitada no âmbito futebolístico, pois na Guanabara se disputava o Campeonato Carioca, denominação do certame atual (de forma equivocada) e o Campeonato Fluminense, disputado por clubes do estado hoje ‘desaparecido’.

Para a cidade do Rio de Janeiro, capital do país desde 1763, a construção de Brasília, inaugurada em 21 de abril de 1960, significou uma queda de status, afetando a vida da cidade. Essa mudança gerou um esvaziamento de sua importância nacional, representando um declínio econômico, já que toda a estrutura administrativa, ministérios, secretarias e empresas estatais, foram transferidas para a nova capital, provocando uma queda no PIB regional.

Visando minimizar essa perda de importância, e recuperar a autoestima de sua população, a cidade do Rio, ex - Capital Federal, passou a ser denominada de ‘estado da Guanabara’, único caso no Brasil de uma cidade-estado (diferente de Brasília, que faz parte do Distrito Federal e é cercado por Cidades-Satélites). O estado da Guanabara durou até a criação da lei complementar Federal Nº 20, de 1974, assinada pelo então presidente Ernesto Geisel, na qual, decretava que a Guanabara fosse, até o ano de 1975, fundida ao Estado do Rio, formando o atual Estado do Rio de Janeiro.

 Esta divisão geográfica era também respeitada no futebol: os clubes da capital disputavam o campeonato organizado pela Federação Carioca de Futebol (FCF), e os times do Estado do Rio, eram filiados à Federação Fluminense de Desportos (FFD), jogando seu próprio certame.

O Campeonato do antigo Estado do Rio é pouco lembrado pela imprensa especializada, que insiste em chamar o atual campeonato de “Carioca”, termo referente aos nascidos na antiga Guanabara, ou cidade do Rio de Janeiro, quando o correto seria Fluminense, pois o certame congrega agremiações de várias cidades e não só da capital. Assim, os Campeões Fluminenses sequer são lembrados nas relações de equipes vencedoras dos campeonatos em periódicos especializados, constando apenas o vencedor do campeonato guanabarino.

Hoje, quando um jovem do estado do Rio é perguntado sobre qual o time de futebol de sua preferência, logo indicará, na ponta da língua, um dos quatro grandes clubes da cidade do Rio de Janeiro (Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco da Gama) e com raríssimas exceções você ouvirá como resposta um clube de Campos, Nova Friburgo, Volta Redonda ou Niterói.

A quase totalidade não sabe nem da existência de times de suas cidades, que marcaram época e que travavam verdadeiros duelos nos sempre lotados estádios Fluminenses. Embora sejam fatos de uma fase áurea do esporte bretão no antigo estado, muito pouco se deixou registrado para a posteridade.

A maioria dos jogadores desta época era composta por filhos de fazendeiros, médicos, advogados, entre outras classes elitistas, ou por estrangeiros que aqui trabalhavam, e não eram poucos, já que o advento da ferrovia, o telégrafo, a companhia de eletricidade e de transporte entre outras em ascensão, dependia da mão de obra (e capital) vindos da Europa. Neste início, o futebol era apenas um entretenimento, pois os pais queriam ver seus filhos doutores, mas os garotos só queriam saber do esporte bretão.

Os menos abastados iam se interessando aos poucos pelo novo jogo e paulatinamente foram entrando no esporte que era “dos riquinhos”, conforme a expressão utilizada na época, e logo encantou a gente brasileira, que foram formando seus escretes. Os grandes empresários notaram a força do futebol e passaram a utilizá-lo como meio de despolitizar os operários, que ao se engajarem na prática futebolística em seu parco tempo de folga, deixavam de pensar em questões relativas ao trabalho, que além de ter carga horária avançada, pagava mal e não dava suporte necessário para seu desenvolvimento.

Por isso, desde os primeiros times surgidos no estado, o apoio dos patrões se faz notar claramente, em Campos dos Goytacazes que, com a Capital do antigo Estado do Rio, Niterói, foram as cidades onde tiveram a presença de maior número de clubes e os mais importantes também. Fora da cidade do Rio, os futebolistas foram impulsionados pela elite canavieira, que fizeram nascer mais de 20 associações que entrariam na era profissional do futebol brasileiro. Em Petrópolis, a indústria têxtil foi a grande impulsionadora, em Volta Redonda, o clube teve apoio da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), em Mendes, houve um time chamado Frigorífico e girava em torno do mesmo, de grande destaque na região, e finalmente, em Niterói, foram diversos clubes oriundos de empresas que tiveram apoio maciço do patronato.

Uma curiosidade desses times formados por classes menos abastadas é a formação do Campos Atletic Association, em 26 de outubro de 1912, que apesar do nome pomposo (que debochavam dos clubes aristocráticos), foi fundado somente por operários negros e mulatos, o que é mostrado em seu escudo, que tem as cores roxa e preta, representando respectivamente o mulato e o negro, grupos predominantes entre os fundadores e adeptos iniciais. Era, junto com o Goytacaz, o representante das classes populares campistas. Outra façanha do Campos, e esquecida no passado, é que o clube foi campeão contando com jogadores negros em 1918, bem antes do Vasco da Gama, na década de 1920, que tem essa primazia na imprensa oficial - mas esse fato é completamente ignorado na contemporaneidade. Vemos, mais uma vez, como as questões sociais – o preconceito e a luta de classes das classes trabalhadoras – mescla-se diretamente com o entusiasmo brasileiro pelo futebol.

Com a proliferação de clubes surgindo por todo o estado, é criada em Niterói, aos sete dias de janeiro de 1925, a Federação Fluminense de Desportos (FFD), porém, somente em 28 de dezembro de 1951 apareceu sua Divisão de Futebol Profissional (DEP), que teve como clubes fundadores: Adrianino A.C. (da cidade de Engenheiro Paulo de Frontin), Barra Mansa F.C. (cidade de Barra Mansa), Central E.C. (Barra do Piraí), Clube dos Coroados (Marquês de Valença), Esperança F.C. (Nova Iguaçu) e Fonseca A.C. (Niterói), tendo os clubes de Campos se filiado ao DEP no ano seguinte, pois seu campeonato interno detinha muita força, e seus clubes relutaram em aderir à nova entidade.  

Durante os anos de 1942 até 1946, os campeões das ligas municipais, representavam sua cidade no campeonato Fluminense de seleções, que foi o embrião do campeonato estadual. Os campeões foram: 1942 – Icaraí (Niterói), 1943 – Royal (Barra do Piraí), 1944 – Icaraí, 1945 – Petropolitano (Petrópolis), e 1946 – Serrano (Petrópolis).

Em 1952, o profissionalismo foi oficialmente implantado em todo o estado, mas sempre esbarrou nas ligas campista e niteroiense, que possuíam seus já tradicionais campeonatos locais, e não disputavam o campeonato estadual. A força dessas duas ligas era tanta que, em 1958, a Federação Fluminense de Futebol extinguiu o seu departamento de futebol profissional. O vencedor do confronto entre os campeões de Campos e de Niterói foi simplesmente considerado o campeão do estado. Somente mais tarde, quando a federação reativou o seu departamento profissional, é que tudo se reorganizou, e clubes de outras cidades puderam também entrar na disputa pelo título e é por esse motivo que a lista dos campeões do antigo campeonato aparece com mais de um campeão por ano.

Os campeões fluminenses até a fusão do estado foram: 1952 – Adrianino (Engenheiro Paulo de Frontin); 53 – Barra Mansa (Barra Mansa); 1954 – Não Houve (sendo considerado o Americano, em Campos); 55 – Frigorífico (Mendes), (Goytacaz, com Cruzeiro e Fonseca dividindo o título da então capital do estado); 56 – Coroados (Marquês de Valença), (com Campos e Fonseca); 57 – Não Houve; 58 – Manufatura (Niterói); 59 – Fonseca; 60 – Não Houve; 61 – Fonseca e Rio Branco; 62 – Fonseca e Rio Branco; 63 – Goytacaz; 64 e 65 – Americano; 66 e 67 – Goytacaz; 68 e 69 – Americano; 70 e 71 – Central (Barra do Piraí); 72 e 73 – Barbará (Barra Mansa); 74 – Sapucaia. Depois da incorporação da cidade do Rio de Janeiro como capital do estado, somente mais três campeonatos desse gênero seriam organizados, em paralelo com o campeonato carioca: 75 – Americano; 76 – Não Houve; 77 – Manufatura; 78 – Goytacaz.

Os clubes do antigo Estado do Rio ainda participaram da Taça Brasil, principal torneio em nível nacional na época e que foi criado, em 1959, em função da obrigação de se ter um campeonato nacional classificatório para a Taça Libertadores da América, no qual participavam os dois primeiros colocados dos campeonatos de todos os países Sul-Americanos.

 O Manufatura de Niterói foi o primeiro representante fluminense na Taça Brasil, que era disputada em partidas eliminatórias, nos moldes da Copa do Brasil da atualidade, seguido pelo também niteroiense Fonseca, nos dois anos seguintes, Rio Branco, de Campos (1962), novamente o Fonseca representaria o estado em 1963, Goytacaz (1964), Eletrovapo de Niterói (1965), Americano de Campos (1966), que fora eliminado pelo poderoso Cruzeiro de Belo Horizonte. Os dois últimos anos em que equipes do antigo estado do Rio disputaram o torneio nacional foi em 1967 e 1968, e o representante foi o Goytacaz.

Nos dias de hoje, a maioria dos clubes que disputavam o antigo campeonato do Estado do Rio deixou de existir profissionalmente, ou se transformaram em clubes amadores, alguns em clubes apenas sociais e outros simplesmente fecharam as suas portas.

Vários foram os motivos que levaram esses clubes ao ostracismo, sendo o primeiro deles, a fusão da cidade do Rio de Janeiro com o estado. Muitos clubes que não viam vantagem em se filiar a Federação do novo estado fecharam portas e encerraram suas atividades futebolísticas. Outros como Americano, Rio Branco e Goytacaz, todos da cidade de Campos, deixaram de ser as estrelas principais do Campeonato Fluminense, para virarem meros coadjuvantes na nova realidade.

Como os jogos do Campeonato Carioca foram os primeiros a serem transmitidos em rede nacional pelo rádio, principal meio de comunicação até a década de 1960, os times do Rio de Janeiro foram conquistando torcedores por todos os cantos do país - e com os ouvintes do antigo estado do Rio de Janeiro, não era diferente. Apesar de estarem distantes do cenário dos clássicos, os interioranos se aproximavam dos times cariocas dos grandes clubes da capital, que foram conquistando cada vez mais torcedores do estado vizinho, e gradativamente se desinteressaram pelo futebol de suas cidades.

O ganho de importância do Campeonato Carioca foi devastador para o Futebol Fluminense, pois os principais jogadores debandavam para a capital em busca de dinheiro e reconhecimento nacional. O primeiro grande golpe sofrido pelo futebol fluminense foi quando o Canto do Rio, clube mais popular de Niterói, se profissionalizou, em 1941 e conseguiu licença especial para jogar o campeonato vizinho, também já na era profissional, diferentemente do estado do Rio, que continuava no amadorismo, embora de forma disfarçada.

Assim, o Campeonato Fluminense foi se desenvolvendo sempre em segundo plano. Outro golpe sofrido pelos fluminenses foi decorrente a decadência da indústria do açúcar em Campos, devido a modernização do setor em São Paulo, principal concorrente dos campistas, fator que fez dezenas de usinas fecharem as portas, nas décadas de 1960 e 1970. Como conseqüência, os clubes não encontraram suporte para continuar suas atividades no âmbito profissional, e isso acarretou o encerramento das atividades de muitos deles, de maneira definitiva, ou a continuação apenas como times amadores.

Na ocasião da fusão dos Estados do Rio com a Guanabara notou-se tamanha disparidade entre as realidades dos clubes dos dois estados, que o futebol de fundiu de forma plena somente em 1979, já com um número reduzido de clubes, pois a concorrência fez com que muitos clubes fechassem as portas, como aconteceu com os de Niterói, e outros precisaram se fundir para ter um único clube na cidade, como foram os casos do Volta Redonda e do Friburguense.

Alguns, como o Fonseca ainda continuaram por pouco tempo no amadorismo e outros, como o Royal, de Barra do Piraí, Fluminense de Nova Friburgo, passaram a penar por vários anos nas divisões inferiores do campeonato estadual.

Uma boa mostra disso é que desde a fusão, nenhum clube do interior conseguiu uma conquista de maior expressão, com exceção de Americano e Volta Redonda, que conquistaram turnos do Campeonato Estadual, mas caíram na decisão do título para o Fluminense em ambas as ocasiões. E assim, a memória do futebol no Rio de janeiro vai se apagando, deixando cair no esquecimento uma parte fundamental de sua história, que durante décadas alimentou a paixão do povo pelo esporte.

 

PARA SABER MAIS:

AGOSTINHO, Gilberto. Vencer ou Morrer: Futebol, Geopolítica e Identidade Nacional. Rio de Janeiro: Faperj / Mauad, 2002.

DURTE, Marcelo (supervisão editorial); VALENTINE, Danilo (edição); BORBA, Alex (artes). Enciclopédia do Futebol Brasileiro. v. 1. Rio de Janeiro: Lance e Aretê, 2001.

MOLINARI, Carlos. A História das Copas. Rio de Janeiro: Litteris, 1998.

OURIVES, Paulo. A História do Futebol Campista. Rio de Janeiro: Cátedra, 1989.

FILHO, Mário. O Negro no Futebol Brasileiro. São Paulo: Mauad, 2003.

ARÊAS, Nilo Terra. Almanaque Esportivo do Jubileu de Ouro do Futebol Campista. São Paulo: Atlas, 1962.